Foto: Marina Brignol (Diário)
A manhã desta Sexta-Feira Santa (3) em Santa Maria foi um exercício de resistência e fé. Sob um céu aberto e um sol radiante nas primeiras horas, cerca de 200 fiéis de todas as idades participaram da Via Sacra "A Estrada da Vida". O evento, que liga o Santuário Tabor (berço da Campanha da Mãe Peregrina de Schoenstatt) à Vila Nobre da Caridade, refaz o trajeto trilhado pelo Venerável Diácono João Luiz Pozzobon (1904-1985) percorria diariamente após a missa.
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O vice-postulador da Causa de Beatificação de Pozzobon, o padre Vitor Hugo Possetti, explica que a Via Sacra é uma "piedade popular" que nos faz compenetrar no episódio da vida de Jesus:
– Nós vamos rezando e contemplando esse mistério da vida de Jesus e nos aproximando também do mistério da nossa vida, que também tem cruz. Unimos a nossa cruz à de Cristo.
A Pampa Verde: comunidade e solidariedade na ladeira
O cenário da procissão foi marcado por contrastes térmicos e gestos de ajuda mútua. Se no início o calor era intenso, o avanço pelo caminho arborizado trouxe o alívio das sombras e um frescor que renovava o fôlego dos peregrinos. À frente do grupo, uma caminhonete Pampa verde ditava o ritmo. Equipada com alto-falantes, ela permitia que as orações e meditações chegassem a todos os presentes.
No veículo, um banner exibia a imagem do Diácono com a frase: “Com João Pozzobon, Herói hoje, não amanhã!”. Mais do que um suporte de som, a Pampa tornou-se um refúgio: em um trecho íngreme e cansativo, as crianças menores foram colocadas na caçamba do carro para serem poupadas do esforço físico, enquanto adultos e crianças mais velhas se uniram para ajudar a empurrar a Pampa para que ela vencesse a ladeira.
Rosas e revezamento na simbolização do sacrifício
A Via Sacra é composta por 15 estações, indo da condenação de Jesus à sua ressurreição. A participação da comunidade foi ativa: houve um revezamento constante de quem carregava os objetos com imagens sacras e de quem conduzia as falas a cada parada. Em um gesto de delicadeza e devoção, rosas eram depositadas em todas as estações.
Segundo o Padre Vitor Hugo Possetti, esse gesto é o ponto central na espiritualidade do diácono:
– Para Pozzobon, a rosa vermelha simbolizava a entrega e o sacrifício. Ele dizia que uma cruz assumida voluntariamente com Cristo se transforma em rosas oferecidas a Deus.
O panfleto distribuído aos fiéis reforçava essa reflexão, convidando cada peregrino a pensar: "O que significa a via sacra na minha vida?".
O Som da Fé: o legado do Diácono na Engenharia da UFSM
Entre os devotos, um olhar técnico e sensível se destacava: o de Karina Porto Monteiro Mühlhofer, 26 anos. Acadêmica do último semestre de Engenharia Acústica da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), ela escolheu o legado de Pozzobon como tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Natural de Brasília e moradora de Santa Maria desde 2018, Karina estuda a "paisagem sonora" dos lugares frequentados pelo Diácono, unindo a ciência de sons e vibrações à percepção humana.
– A paisagem sonora quer saber o que as pessoas sentem quando escutam um lugar. Elas sentem paz? Agonia? Incômodo? – explica Karina, que realiza captações de áudio e imagem para entender como o ambiente influencia o bem-estar e a espiritualidade.
Para ela, o estudo é também uma forma de preservação de patrimônio.
– O som que temos agora não é o mesmo do passado. Se Pozzobon preservava tanto o silêncio, como vamos manter essa paz se o número de visitantes crescer com a futura santificação? O objetivo é construir essa preservação junto com a comunidade – comenta a acadêmica, que reside em Camobi e descobriu a história do "Venerável" apenas no ano passado.
Tradição em família e o destino na caridade
A continuidade da fé foi personificada pela família Legramante Becker Martins. Aline e Guilherme levaram os filhos Mateus, 12 anos, e o bebê Miguel de 1 ano pela primeira vez na Via Sacra.
– É uma alegria estar aqui como família. É importante trazer os pequenos para que eles já vejam a importância da tradição e dos momentos que a Igreja celebra – destacou a jovem.
A família, que integra a Liga de Famílias de Schoenstatt, também representou a Escola Mater Educatrix, uma instituição confessional católica recente em Santa Maria.
– A escola tem esse propósito de viver a fé e as virtudes. O Mateus estuda lá e já está aprendendo essa tradição em família – explicou Guilherme.
O pequeno Mateus percorreu o trajeto com entusiasmo ao lado dos pais e de muitos fiéis.
– Achei bem legal ir do Santuário até aqui – disse o menino ao Diário.
Já o pequeno Miguel conseguiu completar o trajeto inteiro, revezando entre o colo e alguns momentos de sono durante a caminhada.
A jornada terminou na Vila Nobre da Caridade, fundada por Pozzobon em 1 de maio de 1954. Mais do que um destino final, a Vila é o símbolo vivo da missão do diácono. O local chegou a ter 14 casas para dar abrigo temporário a famílias pobres, além de focar na regularização de documentos e na formação escolar e profissional dos moradores.
Antes de se encaminharem para a emblemática Capelinha Azul, as crianças entoaram o canto "Mãezinha do Céu", seguido pelo último Pai Nosso e Ave Maria. O encerramento da Via Sacra foi marcado pela renovação da entrega à Mãe e Rainha e pela oração da novena, mantendo viva a esperança na beatificação daquele que transformou o caminho entre o Santuário e sua casa em uma eterna "Estrada da Vida".